Aquilo era praticamente
parte da rotina de Emily durante o Surto de Peste Negra. Os temidos Médicos da
Peste, em seus mantos pretos e máscaras brancas, mais traziam a notícia de
morte próxima do que realmente tratavam a doença. Não que eles não quisessem –
pelo contrário, tanto que algumas fontes dizem que 90% deles acabaram morrendo
da doença que tentavam curar – mas na época, a Morte Negra, como ficou conhecida
a Peste, era um mistério praticamente incurável. E daí vinha o terror – e o tremor
– de Emily. Se nem os próprios médicos conseguiam resistir à Praga, que
esperança tinha Emily, uma simples camponesa? Assim como qualquer pessoa com
consciência normal, ela estava ciente de que, se fosse visitada pelo Doutor da
Praga, provavelmente estaria assinando seu contrato de morte.
E foi por isso que ela não
moveu um músculo ao ouvir alguém bater na porta.
Ela sabia que ignorar ou não
o provável médico não mudaria seu destino – seja lá qual fosse ele. Mas talvez
o fizesse parecer menos terrível. Ela ficou quieta e esperou. Bateram na porta
de novo. Emily fingiu que não escutou. Aconteceu de novo, dessa vez mais alto.
Para o horror de Emily, ela ouviu como se estivessem forçando a porta. Houve um
estralo e então, passos pela casa toda; que depois de um tempo, começaram a
avançar até a cozinha. Então, silêncio.
– Então – alguém interrompeu,
com um quê de nervosismo na voz. – Aí está você, mocinha.
Emily não se virou para ver
quem era exatamente, mas a julgar pela voz, que parecia abafada por uma máscara
de Doutor da Peste, percebeu que se tratava do próprio.
– Peço desculpas por entrar
na sua casa assim – ele fez uma pausa. – E por estragar sua porta – ele
acrescentou num sussurro. Erguendo a voz novamente, prosseguiu: – Mas como
médico, eu também tenho certa responsabilidade sobre os mortos. Como você não
respondeu quando chamei lá fora, pensei que... – Ele ficou em silêncio por
longos segundos, até terminar num tom sombrio. – Não sei se quero te dar um
abraço por estar viva ou um tapa na cara por me assustar tanto.
A última sentença despertou
a curiosidade de Emily, e ela ganhou coragem para se virar e falar com ele.
– Eu te deixei preocupado?
Mas você nem me conhece...
Não dava para ver o mínimo
detalhe por baixo da máscara do Doutor, mas Emily sentiu que ele a encarava.
– Você não tem ideia de como
é... – Ele demorou a continuar a frase. – Ver tanta gente morrer a sua volta...
E não poder fazer nada para ajudar, mesmo sendo esse o seu trabalho... Sendo
isso o que todo mundo espere que você faça...
– Me desculpe. – Emily
respondeu, um pouco chocada pela resposta.
– Você se importa se eu
voltar amanhã? – Ele murmurou, parecendo tentar segurar lágrimas.
– Á vontade. – Ela
respondeu. – Eu peço perdão.
Em silêncio, ele se virou e
foi embora.
No dia seguinte, ao fim da
tarde, lá estava ele de novo. Dessa vez, Emily atendeu a porta antes mesmo de
ele chamar.
– Olá – ele disse, sem a
tristeza e o pesar do dia anterior. – Eu peço desculpas pelo ocorrido de ontem.
Eu não deveria deixar as emoções interferirem na razão. E peço desculpas também
por... – Ele fez uma pausa, tentando formular bem a frase. – Quando eu disse
que queria te dar um tapa na cara... Não foi bem isso. Eu...
Emily ergueu a mão, num
gesto para que ele ficasse quieto.
– Eu sei. Não precisa se
desculpar. Eu imagino como deve ser horrível lidar com essas coisas.
– Obrigado. – Ele pareceu um
pouco mais animado. – De qualquer maneira, eu acho que estou te devendo um
exame.
– Ah... Certo... Entre.
Emily sentiu um pouco de
medo, mas não ousou revelar por medo de provocar mais uma reação negativa da
parte do médico. Tentou disfarçar.
– Que tipo de “exame” seria
esse, exatamente?
Ele respondeu cutucando ela
com um bastão de madeira. Ela pareceu perplexa.
– Não que eu esteja
questionando seus métodos nem nada... Mas qual é a finalidade disso?
– Como você sabe, ninguém
tem a mínima ideia de como a Morte Negra se espalha. Por isso, qualquer Doutor
da Peste, apesar de já usar luvas e mangas compridas, não deve tocar nos
pacientes. Mas obviamente, ainda precisamos examinar as pessoas, então...
Ele deu um cutucão sobre as
costelas de Emily.
– Você tem notado manchas,
pontos doloridos ou coceira na pele?
– Manchas, só os hematomas
desse exame.
Ele parou por alguns
segundos e ficou quieto. Por um instante, Emily achou que ele tinha ficado
magoado mais uma vez. Mas logo ele começou a brandir o bastão de exame como se
fosse uma espada. Sem pensar duas vezes, deu um golpe, de brincadeira, em Emily.
– Isso sim é deixar
hematomas – ele respondeu, dando outro golpe.
Emily estava ocupada demais
tentando proteger o rosto e o estômago do senso de humor estranho do Doutor
para prestar atenção.
– Mas você parece bem
saudável. – Ele concluiu, finalmente parando com aquela brincadeira grosseira.
– Meus parabéns... Como é mesmo o seu nome?
– Emily. E você, se importa
de contar o seu nome?
– Oh. Emily. Bem, Emily –
Ele pareceu divertido em pronunciar o nome dela. – Eu preciso ir.
Sem dizer mais uma palavra,
ele simplesmente se virou para ir embora. Emily tentou o impedir.
– Mas e o seu nome? – Ela
gritou enquanto ele se afastava cada vez mais, seguindo pelas ruas imundas da
cidade.
– Não se preocupe com isso. Você
não vai precisar dessa informação. – Ele respondeu calmamente, sem olhar para
trás.
No terceiro dia, Emily ficou
surpresa ao vê-lo novamente.
– Aconteceu algo? – Ela
perguntou.
– Sim. Eu senti que ainda
devia desculpas pelo ocorrido na minha primeira visita.
Emily suspirou.
– Você não precisa se preocupar
com isso.
Ele voltou a falar como se
não tivesse escutado o que Emily havia acabado de dizer.
– Eu fiquei refletindo sobre
o assunto. E acho que o mínimo que eu deveria fazer era... Bem... Emily. Feche
os olhos, por favor.
Confusa, Emily não
questionou e fechou os olhos. Ela sentiu que o médico mexia em seu cabelo.
Quando abriu os olhos, para sua surpresa, ele já estava indo embora. Emily
chamou por ele, mas não obteve resposta. Ela então voltou para dentro de casa e
procurou por um espelho, imaginando o que o Doutor da Praga havia aprontado. E
qual não foi seu espanto ao encontrar uma grande flor púrpura, delicadamente
presa entre os fios de seu cabelo?
Vários dias se passaram e
várias vezes o Doutor visitou Emily novamente. Para a moça, virou quase um
ritual aguardar por ele durante a tarde. Apesar do medo – talvez até desprezo –
que tinha sentido dele no primeiro dia, Emily notou que o médico era agora uma
das pessoas que ela mais estimava – apesar da sua mania simplesmente horrível
de nunca revelar o próprio nome, ou também de nunca mostrar o rosto. Até que um
dia ele simplesmente não voltou mais. Quase uma semana se passou até que ele
aparecesse novamente.
Emily alegremente abriu a
porta para recebê-lo. Era um alívio saber que ele ainda estava vivo.
– Por que você ficou tanto
tempo longe? – Ela perguntou. O médico não respondeu.
A alegria de Emily começou a
se dissipar quando ela notou que ele não parecia muito bem. Ele estava
estranhamente curvado, como se sentisse dor, e por baixo de sua máscara, a
respiração parecia ofegante e ruidosa.
– Você está bem?
Ele novamente não respondeu.
Passou por Emily esbarrando nela, e entrou na casa dela sem nem pedir licença.
Emily tentou imaginar o motivo dessa mudança brusca de atitude. Ele normalmente
era educado e calmo. Ela só lembrava-se de tê-lo visto nervoso assim... Quando
ele estava muito preocupado com algo.
Emily o procurou pela casa,
para encontra-lo sentado no chão da cozinha.
– O que aconteceu? – Ela
perguntou, abaixando-se perto dele.
– Eu achei que não fosse
conseguir chegar aqui. – Ele disse ainda ofegante, ignorando completamente a
pergunta que lhe foi feita.
Emily decidiu parar de
perguntar e deixar que ele contasse quando estivesse pronto. Mesmo sabendo que
não deveria, ela segurou a mão dele, tentando deixa-lo mais tranquilo.
– Apesar de todos os
esforços, ninguém tem a mínima ideia do que pode curar a Morte Negra. – O
Doutor da Praga começou. – Mesmo assim... Eu sempre tentei. Mas... – Ele faz
uma longa pausa. – Me desculpe, Emily. Eu não deveria ter vindo. Eu... – Ele
então afastou a mão dela. – Eu não quero deixar você doente.
Emily levou um tempo para
entender do que exatamente ele falava. Quando conseguiu, se arrependeu. O
médico havia pegado a própria doença da qual tentava encontrar a cura.
Ignorando o fato de que a
doença matava praticamente todos os infectados, e que corria um risco sério de
ser contaminada, Emily abraçou o Doutor. Ele, no pânico que deveria estar, não
ousou afastá-la mais uma vez.
– Desde quando você...? –
Ela não terminou a pergunta, como se dizer o nome da doença a tornaria mais
perigosa.
– Na verdade, já faz uns
dias. Eu sei que devia ficar trancado em casa e aceitar meu fim sem arriscar
mais ninguém, mas... Eu senti medo. Eu achei que estivesse pronto para isso,
mas a verdade é que estou assustado e não quero morrer sozinho.
Emily levou um bom tempo
para pensar em algo decente para responder. Ela estava tão chocada e preocupada
quanto ele, mas precisava encontrar uma maneira de confortá-lo. Ela refletiu
sobre a última sentença dele e sussurrou:
– Você não vai ficar
sozinho. Eu estou aqui.
Era algo meio estúpido, na
verdade, mas aparentemente serviu para fazê-lo se sentir melhor. Ele então se
acomodou no abraço de Emily e apoiou-se confortavelmente nela, sem se importar
se estava sendo infantil ou folgado demais. Emily ficou atenta a qualquer sinal
de melhora ou piora no Doutor, até notar que ele havia caído no sono. Um pouco
mais tranquila, ela se permitiu dormir também.
Vários minutos – ou talvez
horas – se passaram, até que Emily acordou. O médico aparentemente ainda dormia
tranquilamente abraçado a ela. Emily o chamou, mas ele não acordou.
– Está se sentindo melhor? –
Ela perguntou, sacudindo-o delicadamente. – Se estiver com fome, eu posso
preparar algo para você comer.
Ele nem se mexeu. Emily,
ainda calma, o sacudiu de novo, dessa vez mais vigorosamente. Começando a ficar
preocupada, tentou falar com ele mais uma vez. Ela sentiu um horror crescente quando
uma possibilidade sombria passou pela sua mente.
– Acorde. Eu ainda estou
aqui. Não precisa ter medo. Acorde!
Para seu completo terror,
ela percebeu que a respiração ofegante dele havia se tornado... Nada. Ela
continuou tentando acordá-lo, cada vez mais certa de que era inútil. Acabou
desistindo. Sem nenhum esforço para segurar as lágrimas, ela o abraçou de
volta, e na falta de lugar melhor, deu um beijo sobre a máscara de couro que
ainda repousava sobre o rosto dele.

BUENO
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