domingo, 23 de novembro de 2014

A Bela e a Peste

(Por: Sabrina M. Gonçalves)



Emily sentou-se à mesa da cozinha, trêmula. Ela pegou o bordado que havia começado na semana passada e começou a (tentar) acaba-lo. O tempo parecia congelado enquanto ela aguardava a visita – não qualquer uma, e sim, na verdade, um Médico da Praga.
Aquilo era praticamente parte da rotina de Emily durante o Surto de Peste Negra. Os temidos Médicos da Peste, em seus mantos pretos e máscaras brancas, mais traziam a notícia de morte próxima do que realmente tratavam a doença. Não que eles não quisessem – pelo contrário, tanto que algumas fontes dizem que 90% deles acabaram morrendo da doença que tentavam curar – mas na época, a Morte Negra, como ficou conhecida a Peste, era um mistério praticamente incurável. E daí vinha o terror – e o tremor – de Emily. Se nem os próprios médicos conseguiam resistir à Praga, que esperança tinha Emily, uma simples camponesa? Assim como qualquer pessoa com consciência normal, ela estava ciente de que, se fosse visitada pelo Doutor da Praga, provavelmente estaria assinando seu contrato de morte.
E foi por isso que ela não moveu um músculo ao ouvir alguém bater na porta.
Ela sabia que ignorar ou não o provável médico não mudaria seu destino – seja lá qual fosse ele. Mas talvez o fizesse parecer menos terrível. Ela ficou quieta e esperou. Bateram na porta de novo. Emily fingiu que não escutou. Aconteceu de novo, dessa vez mais alto. Para o horror de Emily, ela ouviu como se estivessem forçando a porta. Houve um estralo e então, passos pela casa toda; que depois de um tempo, começaram a avançar até a cozinha. Então, silêncio.
– Então – alguém interrompeu, com um quê de nervosismo na voz. – Aí está você, mocinha.
Emily não se virou para ver quem era exatamente, mas a julgar pela voz, que parecia abafada por uma máscara de Doutor da Peste, percebeu que se tratava do próprio.
– Peço desculpas por entrar na sua casa assim – ele fez uma pausa. – E por estragar sua porta – ele acrescentou num sussurro. Erguendo a voz novamente, prosseguiu: – Mas como médico, eu também tenho certa responsabilidade sobre os mortos. Como você não respondeu quando chamei lá fora, pensei que... – Ele ficou em silêncio por longos segundos, até terminar num tom sombrio. – Não sei se quero te dar um abraço por estar viva ou um tapa na cara por me assustar tanto.
A última sentença despertou a curiosidade de Emily, e ela ganhou coragem para se virar e falar com ele.
– Eu te deixei preocupado? Mas você nem me conhece...
Não dava para ver o mínimo detalhe por baixo da máscara do Doutor, mas Emily sentiu que ele a encarava.
– Você não tem ideia de como é... – Ele demorou a continuar a frase. – Ver tanta gente morrer a sua volta... E não poder fazer nada para ajudar, mesmo sendo esse o seu trabalho... Sendo isso o que todo mundo espere que você faça...
– Me desculpe. – Emily respondeu, um pouco chocada pela resposta.
– Você se importa se eu voltar amanhã? – Ele murmurou, parecendo tentar segurar lágrimas.
– Á vontade. – Ela respondeu. – Eu peço perdão.
Em silêncio, ele se virou e foi embora.

No dia seguinte, ao fim da tarde, lá estava ele de novo. Dessa vez, Emily atendeu a porta antes mesmo de ele chamar.
– Olá – ele disse, sem a tristeza e o pesar do dia anterior. – Eu peço desculpas pelo ocorrido de ontem. Eu não deveria deixar as emoções interferirem na razão. E peço desculpas também por... – Ele fez uma pausa, tentando formular bem a frase. – Quando eu disse que queria te dar um tapa na cara... Não foi bem isso. Eu...
Emily ergueu a mão, num gesto para que ele ficasse quieto.
– Eu sei. Não precisa se desculpar. Eu imagino como deve ser horrível lidar com essas coisas.
– Obrigado. – Ele pareceu um pouco mais animado. – De qualquer maneira, eu acho que estou te devendo um exame.
– Ah... Certo... Entre.
Emily sentiu um pouco de medo, mas não ousou revelar por medo de provocar mais uma reação negativa da parte do médico. Tentou disfarçar.
– Que tipo de “exame” seria esse, exatamente?
Ele respondeu cutucando ela com um bastão de madeira. Ela pareceu perplexa.
– Não que eu esteja questionando seus métodos nem nada... Mas qual é a finalidade disso?
– Como você sabe, ninguém tem a mínima ideia de como a Morte Negra se espalha. Por isso, qualquer Doutor da Peste, apesar de já usar luvas e mangas compridas, não deve tocar nos pacientes. Mas obviamente, ainda precisamos examinar as pessoas, então...
Ele deu um cutucão sobre as costelas de Emily.
– Você tem notado manchas, pontos doloridos ou coceira na pele?
– Manchas, só os hematomas desse exame.
Ele parou por alguns segundos e ficou quieto. Por um instante, Emily achou que ele tinha ficado magoado mais uma vez. Mas logo ele começou a brandir o bastão de exame como se fosse uma espada. Sem pensar duas vezes, deu um golpe, de brincadeira, em Emily.
– Isso sim é deixar hematomas – ele respondeu, dando outro golpe.
Emily estava ocupada demais tentando proteger o rosto e o estômago do senso de humor estranho do Doutor para prestar atenção.
– Mas você parece bem saudável. – Ele concluiu, finalmente parando com aquela brincadeira grosseira. – Meus parabéns... Como é mesmo o seu nome?
– Emily. E você, se importa de contar o seu nome?
– Oh. Emily. Bem, Emily – Ele pareceu divertido em pronunciar o nome dela. – Eu preciso ir.
Sem dizer mais uma palavra, ele simplesmente se virou para ir embora. Emily tentou o impedir.
– Mas e o seu nome? – Ela gritou enquanto ele se afastava cada vez mais, seguindo pelas ruas imundas da cidade.
– Não se preocupe com isso. Você não vai precisar dessa informação. – Ele respondeu calmamente, sem olhar para trás.

No terceiro dia, Emily ficou surpresa ao vê-lo novamente.
– Aconteceu algo? – Ela perguntou.
– Sim. Eu senti que ainda devia desculpas pelo ocorrido na minha primeira visita.
Emily suspirou.
– Você não precisa se preocupar com isso.
Ele voltou a falar como se não tivesse escutado o que Emily havia acabado de dizer.
– Eu fiquei refletindo sobre o assunto. E acho que o mínimo que eu deveria fazer era... Bem... Emily. Feche os olhos, por favor.
Confusa, Emily não questionou e fechou os olhos. Ela sentiu que o médico mexia em seu cabelo. Quando abriu os olhos, para sua surpresa, ele já estava indo embora. Emily chamou por ele, mas não obteve resposta. Ela então voltou para dentro de casa e procurou por um espelho, imaginando o que o Doutor da Praga havia aprontado. E qual não foi seu espanto ao encontrar uma grande flor púrpura, delicadamente presa entre os fios de seu cabelo?

Vários dias se passaram e várias vezes o Doutor visitou Emily novamente. Para a moça, virou quase um ritual aguardar por ele durante a tarde. Apesar do medo – talvez até desprezo – que tinha sentido dele no primeiro dia, Emily notou que o médico era agora uma das pessoas que ela mais estimava – apesar da sua mania simplesmente horrível de nunca revelar o próprio nome, ou também de nunca mostrar o rosto. Até que um dia ele simplesmente não voltou mais. Quase uma semana se passou até que ele aparecesse novamente.

Emily alegremente abriu a porta para recebê-lo. Era um alívio saber que ele ainda estava vivo.
– Por que você ficou tanto tempo longe? – Ela perguntou. O médico não respondeu.
A alegria de Emily começou a se dissipar quando ela notou que ele não parecia muito bem. Ele estava estranhamente curvado, como se sentisse dor, e por baixo de sua máscara, a respiração parecia ofegante e ruidosa.
– Você está bem?
Ele novamente não respondeu. Passou por Emily esbarrando nela, e entrou na casa dela sem nem pedir licença. Emily tentou imaginar o motivo dessa mudança brusca de atitude. Ele normalmente era educado e calmo. Ela só lembrava-se de tê-lo visto nervoso assim... Quando ele estava muito preocupado com algo.
Emily o procurou pela casa, para encontra-lo sentado no chão da cozinha.
– O que aconteceu? – Ela perguntou, abaixando-se perto dele.
– Eu achei que não fosse conseguir chegar aqui. – Ele disse ainda ofegante, ignorando completamente a pergunta que lhe foi feita.
Emily decidiu parar de perguntar e deixar que ele contasse quando estivesse pronto. Mesmo sabendo que não deveria, ela segurou a mão dele, tentando deixa-lo mais tranquilo.
– Apesar de todos os esforços, ninguém tem a mínima ideia do que pode curar a Morte Negra. – O Doutor da Praga começou. – Mesmo assim... Eu sempre tentei. Mas... – Ele faz uma longa pausa. – Me desculpe, Emily. Eu não deveria ter vindo. Eu... – Ele então afastou a mão dela. – Eu não quero deixar você doente.
Emily levou um tempo para entender do que exatamente ele falava. Quando conseguiu, se arrependeu. O médico havia pegado a própria doença da qual tentava encontrar a cura.
Ignorando o fato de que a doença matava praticamente todos os infectados, e que corria um risco sério de ser contaminada, Emily abraçou o Doutor. Ele, no pânico que deveria estar, não ousou afastá-la mais uma vez.
– Desde quando você...? – Ela não terminou a pergunta, como se dizer o nome da doença a tornaria mais perigosa.
– Na verdade, já faz uns dias. Eu sei que devia ficar trancado em casa e aceitar meu fim sem arriscar mais ninguém, mas... Eu senti medo. Eu achei que estivesse pronto para isso, mas a verdade é que estou assustado e não quero morrer sozinho.
Emily levou um bom tempo para pensar em algo decente para responder. Ela estava tão chocada e preocupada quanto ele, mas precisava encontrar uma maneira de confortá-lo. Ela refletiu sobre a última sentença dele e sussurrou:
– Você não vai ficar sozinho. Eu estou aqui.
Era algo meio estúpido, na verdade, mas aparentemente serviu para fazê-lo se sentir melhor. Ele então se acomodou no abraço de Emily e apoiou-se confortavelmente nela, sem se importar se estava sendo infantil ou folgado demais. Emily ficou atenta a qualquer sinal de melhora ou piora no Doutor, até notar que ele havia caído no sono. Um pouco mais tranquila, ela se permitiu dormir também.
Vários minutos – ou talvez horas – se passaram, até que Emily acordou. O médico aparentemente ainda dormia tranquilamente abraçado a ela. Emily o chamou, mas ele não acordou.
– Está se sentindo melhor? – Ela perguntou, sacudindo-o delicadamente. – Se estiver com fome, eu posso preparar algo para você comer.
Ele nem se mexeu. Emily, ainda calma, o sacudiu de novo, dessa vez mais vigorosamente. Começando a ficar preocupada, tentou falar com ele mais uma vez. Ela sentiu um horror crescente quando uma possibilidade sombria passou pela sua mente.
– Acorde. Eu ainda estou aqui. Não precisa ter medo. Acorde!
Para seu completo terror, ela percebeu que a respiração ofegante dele havia se tornado... Nada. Ela continuou tentando acordá-lo, cada vez mais certa de que era inútil. Acabou desistindo. Sem nenhum esforço para segurar as lágrimas, ela o abraçou de volta, e na falta de lugar melhor, deu um beijo sobre a máscara de couro que ainda repousava sobre o rosto dele.

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